quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Música


O Senhor Rock’n Roll


Régis Martins

Site A Cidade de Ribeirão Preto




Marcelo Nova é a contradição em pessoa. Diz que toda banda de rock deveria acabar quando seus integrantes completassem 30 anos de idade, mas ele mesmo montou o Camisa de Vênus com essa idade. Hoje, aos 56, está sempre às turras com seus ex-companheiros, mas volta e meia, faz um revival.


AC - Marcelo, o que era ser roqueiro na Bahia nos anos 60, 70?

MN - Era bem diferente do que é hoje. Primeiro você não tinha clipe de ninguém. A imagem dos meus artistas preferidos, eu via pelas capas dos LPs. A velocidade da informação era muito lenta. E eu era meio que um estranho no ninho porque os molequesna minha idade não ouviam as mesmas coisas do que eu. No recreio, enquanto os garotos iam jogar bola, eu e um amigo, ficávamos discutindo o timbres da guitarra de "Satisfaction" (Rolling Stones).


AC - Mas artistas como João Gilberto ou mesmo Caetano Veloso e Gilberto Gil já eram ídolos em Salvador?

MN - João Gilberto já era visto como uma espécie de ídolo universitário, mas não havia ainda o Tropicalismo e Caetano e Gil ainda estavam começando. Mas a música baiana se pautava por uma postura ufanista. Até hoje os artistas vivem enaltecendo a beleza, a magia do axé e as vantagens de se curtir a Bahia. Eu francamente nunca consegui me identificar com isso. Não gosto de praia, não gosto de sol, não gosto do Senhor do Bonfim.


AC - Então, Bossa Nova, nem pensar?...

MN - Minha irmã, doze anos mais velha, ouvia João Gilberto em casa.Mas eu escutava aquela coisa do "pato que cantava alegremente" e achava aquilouma coisa muito infantil. Eu gostava mesmo era do lobo mau que comia a vovozinha. Era algo muito mais excitante. Eu acredito que o que me chamava mais atenção dorock era a selvageria em contraste com a placidez musical que se ouvia em casa. Escutei aquela coisa do "We bop Lula Uop bem boom" e subi no sofá de molas de minha mãe que ela havia acabo de comprar. Quer saber o que é transgressão? é subir no sofá que sua mãe comprou em "Beraldo Móveis", velho (risos)


AC - Quando você decidiu ir para São Paulo?

MN - em 1980 quando eu montei o Camisa de Vênus e até 83 ficamos na Bahia, onde criamos uma cena muito intensa. Mas a partir daquele ano não havia mais lugar para o Camisa e já tínhamos provocado cisões e polêmicas infinitas e resolvemos ir para São Paulo. Fui e acabei ficando. Já tenho até filho paulistano.


AC - De alguma forma, a (roqueira baiana) Pitty é um resultado desse caminho aberto pelo Camisa de Vênus?

MN - isso você vai ter que perguntar pra ela. Mas sem dúvida nenhuma, numa cidade provinciana e com um monobloco cultural tão presente como Salvador, o camisa abriu portas para muita gente. Até Raulzito, que fazia rock anteriormente, tinha um repertório que consistia de covers. E o Camisa tocava suas próprias canções. Sinto dizer que hoje nunca mais ocorreu algo parecido. Hoje em dia só aparecem estes meninos emos, homorróidas, com estes cabelinhos grudados. Quantos meninos babacas! Vão ousar na vida seus bundas moles (risos)


AC - E por que o Camisa de Vênus acabou?

MN - Todas as bandas de rock deveriam acabar quando os caras fizessem 30 anos. Se isso acontecesse, a gente não precisava ver o Mick Jagger rebolando com 65 anos como se fosse um garotinho. e ele é um vovozinho . Isso é proundamente ridículo. O que é a essência do rock? : É a juventude. Como é possível, depois dos 40 anos, você se comportar dessa forma?....


AC - mas ás vezes, vocês voltam, gravam discos...

MN - ah, a gente faz umas reuniões a cada cinco ou seis anos, mas como nós nos odiamos e ao mesmo tempo nos amamos, isso dura pouco. No camisa, somos em cincoe não temos nada em comum um com o outro. Eu odeio o guitarrista, que odeia o baixista, que odeia o outro guitarrista e nós odiamos o baterista. Essa é a única coisa que temos em comum (risos)


AC - E como foram os show com Raul Seixas no final dos anos 80? Não deve ter sido nada fácil....

MN - Não foi mesmo. que a gente se encontrou na rua, cheiramos uma carreira e saímos cantando por aí. Na verdade, já éramos amigos há quatro, cinco anos. Foi nossa amizade que nos levou a formar uma parceria. para fazer a turnê, não tínhamos estrutura e nem gravadora. Tanto que nos primeiros shows, iam de 50 a 100 pessoas. A imprensa não queria nem saber, pois era o encontro do cachaceiro com o porra-louca e eles não queria perder tempo com estas bobagens. Só que esta bobagem cresceu e começamos a fazer shows para 20 mil pessoas.


AC - Então vocês gravaram um disco em parceria.

MN - Aí apareceu a gravadora (Warner) interessada em gravar o disco. O "Panela do Diabo", na minha opinião, passou no teste mais difícil, o teste do tempo. Gosto de pensar que ele é relevante até hoje.


AC - Mas logo depois, raul morreu. Foi um choque pra você?

MN - As pessoas perdedram um ídolo, eu perdi um amigo. a parte boa diso tudo é que, além do legado que ele deixou, o Raul morreu cantando, trabalhando. antes da nossa turnê, havia cinco anos que ele não subia num palco. Foi uma aventura muito mais gratificante no ponto de vista humano do que o Senhor dos Anéis, por exemplo (risos)


AC - E nos seus shows, continua cantando as músicas da época do Camisa de Vênus?

MN - Claro, porque fui eu que fiz. Eu sou ególatra, então sempre vou tocar as músicas de minha carreira solo e minhas músicas e de Raul, porque foi nós que fizemos.

1 comentários:

Blog Esporte Clube disse...

Paulo, passei para te desejar um otimo 2009! Com muita paz, saude e sucesso!!
bj.

angelica