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domingo, 18 de julho de 2010
domingo, 19 de outubro de 2008
Entrevista - Jaguar

A MORTE DO CARTUM
O cartunista Jaguar, fala sobre os rumos do humor brasileiro e o legado deixado pelo "Pasquim" à imprensa.
Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007
"Os Humoristas estão muito certinhos"
O cartum está morrendo, o "Pasquim" não foi assim tão influente e o mundo anda ficando sem graça. Apesar de fazer diagnósticos tão alarmistas, o humorista Jaguar não se diz um nostálgico. "Nostalgia é coisa de velho gagá", diz. O humorista avalia que a vida do "Pasquim" poderia ter sido mais curta, pois o jornal foiperdendo influência e tiragem. "Devia ter ido cuidarda minha vida, mas insisti de teimoso, de burro."
SYLVIA COLOMBO
Aos 75 anos e ainda freqüentando de modo assíduo os botequins do Rio - e os da cidade onde estiver-, Jaguar encontrou a Folha num tradicionalrestaurante da rua São José, nocentro da cidade, na tarde da última sexta-feira.
O motivo da entrevista é o fato de ele estar agora à frente da coleção de humor da editora carioca Desiderata, publicando novos cartunistas e gente da época do "Pasquim", incluindo ele próprio. Entre os lançamentos vindouros, um livro de cartuns que ele havia publicado apenas na Argentina, há maisde 30 anos, e do qual não lembrava mais. "Voltei para o Rio,cai na gndaia, e esqueci dele. "O título, sugestivo, é :
"NadieEs Perfecto" (ninguém é perfeito).
Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.
FOLHA - Como anda o cartum?
JAGUAR - O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita gente publicando história em quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não,não pago as minhas contas.
FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?
JAGUAR - Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre avisita do Bush. Desenhei o Lula chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: "Ei, ô companheiro, e a saideira?"
Isso é uma charge. Uma piada que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é em cima de uma circunstância.
FOLHA - E o cartum?
FOLHA - E o cartum?
JAGUAR - É um troço que você faz sobre assuntos que daqui a 20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma piada qualquer sobre o "Ricardão dentro do armário". Todo mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos momentâneos vão ficando incompreensíveis.
FOLHA - E por que o cartum está em extinção?
JAGUAR - Porque ninguém mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando emplaco um cartum. Mas tem de ser disfarçado de charge. Senão for assim, não passa.
FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?
JAGUAR - Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que revistas no mundo todo estão desaparecendo. A única que ainda publica cartum de verdade é a "The New Yorker".
FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação ao "Pasquim"? As pessoas romantizam demais essa época?
JAGUAR - Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo:"Ah, no tempo do "Pasquim'". É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir o "Pasquim" até hoje.
FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência do "Pasquim"?
JAGUAR - Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.
FOLHA - Mas você escreveu que,com o "Pasquim", a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR - É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O "Pasquim" deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.
FOLHA - Como assim?
JAGUAR - A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu,
JAGUAR - Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo:"Ah, no tempo do "Pasquim'". É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir o "Pasquim" até hoje.
FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência do "Pasquim"?
JAGUAR - Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.
FOLHA - Mas você escreveu que,com o "Pasquim", a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR - É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O "Pasquim" deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.
FOLHA - Como assim?
JAGUAR - A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu,
o Tarso de Castro e o Sérgio Cabral. Mas depois todo mundo sumiu.
FOLHA - Sumiu?
JAGUAR - Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso "estilo".
FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR - Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho
FOLHA - Sumiu?
JAGUAR - Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso "estilo".
FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR - Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho
que essa fórmula se esgotou.FOLHA - Por quê?JAGUAR - Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça.
FOLHA - Até quando, então, você acha que o "Pasquim" justificou a sua existência?
JAGUAR - O "Pasquim" foi uma experiência muito divertida,mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá,morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta.
FOLHA - Até quando, então, você acha que o "Pasquim" justificou a sua existência?
JAGUAR - O "Pasquim" foi uma experiência muito divertida,mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá,morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta.
Um maluco.
FOLHA - Dá para viver de cartum?
FOLHA - Dá para viver de cartum?
JAGUAR - Não. Eu trabalhei 17 anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia.
O banco foi fundamental. Não só pela grana, mas porque me ensinou a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra,um monte de coisa. Mas nunca faltei no trabalho. Também nunca deixei de entregar um desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.
FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?JAGUAR - Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo.
FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?JAGUAR - Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo.
Fui casado dezanos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer
que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia. Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gentepassa um pouco, leva pito. Eunão levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: "Ah, é o Jaguar, deixa ele".
Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
FERAS DO TRAÇO - AROEIRA


Os personagens da vida pública brasileira e mundial são alvos constantes de seus desenhos precisos. Com crítica e ironia, ele ilustra a primeira página do jornal carioca O DIA.
Mas, afinal, quem é Renato Luiz Campos Aroeira?
"Sou um cartunista amador", se auto-define Aroeira. "Amador no sentido de amar o que faz, de estar aberto a novas possibilidades, aprender cada vez mais", completa. "E também sou um saxofonista que queria ser profissional".
"Sou um cartunista amador", se auto-define Aroeira. "Amador no sentido de amar o que faz, de estar aberto a novas possibilidades, aprender cada vez mais", completa. "E também sou um saxofonista que queria ser profissional".
O mineiro que desde pequeno desenhava nas paredes de casa tem uma banda - Os Optimistas - , com uma rapaziada na "faixa dos 40". Não satisfeito, ainda participa da Conjunto Nacional, dos irmãos Chico e Paulo Caruso, no naipe de saxofones, ao lado de Luís Fernando Veríssimo. "Ser cartunista é tão difícil quanto ser músico", conta.
Para Aroeira, qualquer tipo de poder merece crítica: do público (governo) ao pessoal ("quem comete abusos, como certos jogadores de futebol"). "Meu estilo é de ataque. Não me guio pelo politicamente correto, que é um meio de matar o humor", dispara. O cartunista diz ter engajamento ético, e não limites éticos: "Nas minhas charges, só não há pornografia. Nunca perco a compostura".
Várias de suas charges causaram polêmica e muitas foram premiadas como uma que ilustrava a fuga de menores de uma casa de detenção, com o ex-governador do Rio Marcello Alencar desculpando-se pela falta de controle do caso. Aroeira ganhou com esse desenho, e mais dois outros, o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos e Anistia Internacional em 1998. Nas outras que também o fizeram ganhar prêmios, Aroeira fazia alusão à declaração do ex-presidente FHC que chamou os aposentados de vagabundos, e à morte de menores em duas chacinas.
Um botafoguense que compra briga com as outras torcidas
Aroeira dá a ficha técnica: torcedor do Atlético-MG e Botafogo, 47 anos, 33 de profissão, casado com Aida Queiroz, uma das diretoras do Anima Mundi, e pai de Alice, 18, e André, 8. Como todo cartunista, começou em jornais pequenos, locais, criando um público cativo. No seu caso, foi aos 17 anos na coluna de seu pai, que escrevia na editoria de esportes do Jornal de Minas. A sua primeira experiência "profissional", no entanto, foi ilustrando um livro de sua mãe, com apenas 12 anos. De lá para cá, passou pelos principais jornais cariocas e há quatro anos é o responsável pela charge da primeira página do DIA, tambémpublicada na revista IstoÉ.
Ele bem que tentou fazer outra coisa: ingressou na faculdade de Engenharia, passou para Física e depois para Matemática. Mas esbarrou numa tal disciplina EPB - Estudos dos Problemas Brasileiros. "Era a época da militância estudantil", resume Aroeira, deixando a ironia nas entrelinhas. Foi presidente de DCE (Diretório Central dos Estudantes), fez parte do movimento sindical e chegou, ainda, a cursar uma semana do curso de Belas-Artes. "Já era chargista profissional, achava que não era mais válido", ressalta.
O que hoje é trabalho, na adolescência servia como "instrumento de aceitação". "Como era meio nerd, usava meus desenhos para conquistar as garotas. Era a arma para quem não tinha um carro do ano e não podia ser considerado o galã da turma", diz.
"Quando uma charge me agrada, agrada aos meus leitores. Mas se um chargista agrada todo mundo, algo está errado", alerta Aroeira.
Aroeira quer aperfeiçoar suas charges. Ele pretende estudar animação e aprender a utilizar programas em 3D para modelar os personagens.
Aroeira tem na ponta da língua a lista dos seus ídolos do traço, hoje grandes colegas de profissão: Ziraldo, Jaguar, Millôr, Chico e Paulo Caruso, Ique, Miguel Paiva... Uma lista tão longa quanto à simpatia e a ironia de Aroeira.
* Patrocinado pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, pela Federação Nacional dos Jornalistas, pela OAB e pelo Vicariato de Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, o prêmio foi criado em 1978 para lembrar a morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela repressão, nas celas do DOI-Codi em São Paulo, em 25 de outubro de 1975
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